Qual a função do arquiteto?

É muito comum em nosso país a confusão entre que trabalhos o arquiteto pode realizar e que trabalhos são atribuições dos engenheiros. Arquitetos podem calcular estruturas? Engenheiros podem fazer projetos arquitetônicos? Arquitetos podem tocar uma obra? “Quero construir ou reformar uma casa, qual deles devo chamar?” é uma pergunta que se ouve com frequência.ilustracao-construcoes

Essas dúvidas perturbam não só futuros clientes desses profissionais, mas também estudantes prestes a escolher entre uma das duas profissões. Por isso, é ainda mais grave constatar que mesmo nas faculdades essa questão não está bem resolvida.

É fácil visitarmos sites, blogs e comunidades de engenheiros na internet e encontrarmos colocações do tipo: “Nunca deixe um arquiteto fazer um projeto estrutural e, muito menos, executar a obra. Isso é trabalho de engenheiro! Arquiteto faz projeto arquitetônico e ponto.” Apesar de equivocada, tal afirmação é repetida para quem quiser ouvir.

A formação do arquiteto possibilita uma vasta atuação que está expressa pela Lei Federal 5194/1966 e pela resolução 218/1973, que determinam as atribuições do arquiteto e urbanista e as especificações de serviços que podem executar, cabendo ao arquiteto as seguintes atividades referentes a edificações, conjuntos arquitetônicos e monumentos, arquitetura paisagística e de interiores; planejamento físico, local, urbano e territorial, e serviços afins e correlatos:

- Estudo, planejamento, projeto e especificação
- Assistência, assessoria e consultoria
- Direção de obra e serviço técnico. Vistoria, perícia, avaliação, arbitramento, laudo e parecer técnico
- Desempenho de cargo e função técnica
- Ensino, pesquisa, análise, experimentação, ensaio e divulgação técnica e extensão
- Elaboração de orçamento
- Padronização, mensuração e controle de qualidade
- Execução de obra e serviço técnico
- Fiscalização de obra e serviço técnico
- Produção técnica e especializada
- Condução de equipe de instalação, montagem, operação, reparo ou manutenção
- Execução de instalação, montagem e reparo
- Operação e manutenção de equipamento e instalação
- Execução de desenho técnico

Como podemos ver, o arquiteto está habilitado a realizar não só atividades relacionadas ao projeto, como também pode coordenar obras completas e calcular estruturas. Nas faculdades de arquitetura há inúmeras matérias relacionadas a cálculo, estruturas, hidráulica, elétrica e materiais e, frequentemente, essas disciplinas são ministradas por engenheiros, dentro das faculdades de engenharia, como acontece na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Mas, então, qual é a diferença entre o arquiteto e o engenheiro?

A formação do arquiteto é muito ampla e reúne não só matérias técnicas, como as mais conceituais. Versa tanto sobre resistência dos materiais, quanto sobre história e arte. O arquiteto é, antes de tudo, um humanista.

Talvez esteja aí a principal diferença entre engenheiros e arquitetos. Enquanto o primeiro está preocupado com o edifício, com as questões técnicas da construção, o segundo está preocupado com o ser humano que ocupará esta construção. Com o indivíduo, com as relações entre o homem e o espaço construído.

A participação do engenheiro começa na fabricação dos materiais e vai até a execução da obra, passando por diversos projetos. O diálogo com os arquitetos é constante e fundamental.

Quando começa um projeto, o arquiteto analisa primeiramente o terreno em que os prédios ou casas serão implantados. Há vizinhos? São altos, baixos, muitos ou poucos? Estão próximos ou distantes? O que há em volta, uma cidade ou uma montanha? Existem belas vistas para alguma direção? De que lado nasce o sol? É um local frio? O terreno é plano ou inclinado? Fica na praia ou no campo?

Às respostas obtidas, o arquiteto soma outras sobre as necessidades do cliente: de quantos quartos ele precisa, quantas pessoas vão habitar aquela futura casa, quanto dinheiro o cliente tem para gastar?

A partir desses questionamentos, o arquiteto monta o que chamamos de programa de necessidades, que vai embasar todo o projeto. Quando iniciar um trabalho, é importante nunca pular essa etapa do trabalho. Um programa mal feito certamente acarretará um edifício desconfortável.

Com um programa em mãos, o arquiteto colocará toda a sua experiência de vida, os seus conhecimentos técnicos e artísticos a serviço do cliente. Buscará projetar o edifício mais eficiente e belo, mais bem inserido no lote, mais eficiente energeticamente e que melhor responda às necessidades e aspirações do cliente, tudo isso pelo melhor custo-benefício.

O trabalho do arquiteto é, por natureza, generalista e a este se juntarão os trabalhos de outros profissionais, em geral engenheiros especialistas, como os calculistas, engenheiros de elétrica, hidráulica, de ar condicionado e outros. Todos estes projetos devem ser coordenados pelo arquiteto, que possui visão global sobre o projeto.

Desta forma, o primeiro a trabalhar num projeto é o arquiteto, que posteriormente distribui este projeto para diversos especialistas e ao final, junta tudo num grande pacote, processo que chamamos de compatibilização, para que a obra possa ser corretamente orçada e executada. Estes dois últimos trabalhos podem ser executados tanto por arquitetos, quanto por engenheiros.

Arquitetos podem realizar obras de qualquer tamanho? Sim. Apesar de no Brasil as grandes obras serem geralmente coordenadas por engenheiros, os arquitetos estão aptos para tal. Em países como a Espanha é quase obrigatória a figura do “arquiteto da obra” ao invés do “engenheiro da obra”. Mas é bom dizer que, se uma maior presença dos arquitetos nas obras seria benéfica para a nossa construção, nossa engenharia é extremamente desenvolvida e competente.

O arquiteto pode desenvolver projetos de residências, escolas, edifícios de escritórios, museus, bibliotecas, universidades; prédios de apartamentos, fábricas e hospitais; empreendimentos novos, reformas e restauro. Além desses serviços, pode ainda realizar projetos de paisagismo, desenho urbano, desenho industrial e programação visual. Note-se, portanto, que a sua atuação vai da escala da cidade à da cadeira – de um grande parque a um pequeno objeto. Entender a relação entre essas diversas escalas é uma atividade ao mesmo tempo desafiadora e gratificante.

Lucio Costa, autor do projeto da nossa capital que vai completar 50 anos, definiu arquitetura como “construção concebida com a intenção de ordenar e organizar plasticamente o espaço, em função de uma determinada época, de um determinado meio, de uma determinada técnica e de um determinado programa.”
Fonte: Casa e Imoveis